a cidade abre-se aos homens a luz à sombra os olhos à dor rasga a curva dos dias opacos com o incessante grito de passos sonolentos que invadem cada manhã no verso obscuro do invisível anepígrafo verso que escolhe a cegueira das mãos para incendiar o que resta da casa fria da roupa suja das torres ocas das vidraças incandescentes (...)
à tona d’água no abrir de olhos da manhã a cidade parece um cristal adormecido glauco nevoeiro espelho quebrado abandonado à dor do gelo grito do guindaste gemendo o movimento do frio
e o homem disse
... faça-se a cidade aqui
cardo - decumano
e a mulher
mãos ao redor do torso musculado do homem
disse
... deixa que eu sejas tu
na limpidez do meu nome
Maria
mulher
restos esquecidos da tua geração
do teu nome de família
eu
apenas eu
um eco do nome largado às mãos do vento
temeroso à tua força
(...)
é estranho, mas haverá sempre uma rosa de areia a prender-nos os dedos à beira da água e a memória de uma papoila vermelha numa seara; sobre ela, só o vulto do homem desaparecerá, mas não a sua sombra. Para lá do voo do pássaro, na planície onde as areias quentes queimam o rosto da pureza da manhã só o corpo do homem, volátil e suado, sabe os caminhos mais para além de qualquer oceano. (...)
invadam mil bandeiras a praça maior
e inundem a avenida da memória
rasgando,
em cada pedra da calçada gasta,
um grito de revolta que ecoe na cidade há muito aconchegada ao medo.
Cada nome,
mudo e carcomido pelo tempo,
abra os braços em cada esquina
em cada ruela
em cada beco mais acanhado
e escreva vento asa riso árvore flor rio
(...)