Cidades da Įgua

com pinturas de Manuel Passinhas e texto de Miguel Rego

I

  

a cidade abre-se aos homens

a luz à sombra

os olhos à dor

 

rasga a curva dos dias opacos

com o incessante grito de passos sonolentos

que invadem cada manhã no verso obscuro do invisível

 

anepígrafo verso que escolhe a cegueira das mãos para incendiar o que resta

da casa fria

da roupa suja

das torres ocas

das vidraças incandescentes

 

 (...)

 

 

IV

    

à tona d’água

no abrir de olhos da manhã

a cidade parece um cristal adormecido

glauco nevoeiro

espelho quebrado

abandonado à dor do gelo

grito do guindaste gemendo o movimento do frio

 

     

 

VI

e o homem disse

... faça-se a cidade aqui

cardo - decumano

 

e a mulher

mãos ao redor do torso musculado do homem

disse

... deixa que eu sejas tu

na limpidez do meu nome

Maria

mulher

restos esquecidos da tua geração

do teu nome de família

eu

apenas eu

um eco do nome largado às mãos do vento

temeroso à tua força

 

(...)

  

XI

 

é estranho, mas

haverá sempre uma rosa de areia

a prender-nos os dedos

à beira da água

e a memória de uma papoila vermelha numa seara;

sobre ela, só o vulto do homem desaparecerá,

mas não a sua sombra.

 

Para lá do voo do pássaro,

na planície onde as areias quentes queimam o rosto da pureza da manhã

só o corpo do homem,

volátil e suado,

sabe os caminhos mais para além de qualquer oceano.

 

(...) 

 

 

  

 

XVIII

 

invadam mil bandeiras a praça maior

e inundem a avenida da memória

rasgando,

em cada pedra da calçada gasta,

um grito de revolta que ecoe na cidade há muito aconchegada ao medo.

 

Cada nome,

mudo e carcomido pelo tempo,

abra os braços em cada esquina

em cada ruela

em cada beco mais acanhado

e escreva vento asa riso árvore flor rio

 

(...)

     

 

 

        

 

(Excertos de poemas e pinturas do livro)

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